10 de junho de 2015 Por
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Viena fora da poesia

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Eu adoro as crônicas da Martha Medeiros, mas essa semana li uma que discordo. Seu texto dizia: “Assim são também as pessoas interessantes: têm falhas. Pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade linda, limpa, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona e você quase morre de tédio. Falhas. Agradeça as suas, que é o que humaniza você, e nos fascina.”

Entendo perfeitamente o que ela diz, mas queria dizer que essa foi uma infeliz comparação, porque Viena de perto não é tão perfeita assim.

Primeiro, porque nada que é perfeito existe por muito tempo. E Viena existe. Segundo, porque a cidade é feita de pessoas que tem suas qualidades e defeitos, seus amores e suas dores. Enfim, Viena é povoada por pessoas boas e ruins.

Martha Medeiros, Viena, é sim, uma cidade linda, limpa, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona, mas informo que só se morre de tédio por aqui por três motivos: ou a pessoa é, por natureza, um tédio e está no lugar errado, não está disposta a ser feliz, ou deu azar na vida.

Viena é linda e perfeita, especialmente em fotografia. Mas venha morar aqui e descobrirá seu lado real e verdadeiro. Para alguns, um lugar feio e sombrio, para outros um local romântico, e há aqueles que a achem hostil.

Assim como em qualquer relacionamento, viver em determinado lugar também nos mostra coisas que não podemos detectar nos primeiros meses, talvez nem nos primeiros anos. Mas quando convivemos diariamente, descobrimos as falhas e as sensações ruins, como as tristezas, cheiros, dores e desgostos que as fotografias não contam.

Eu acho superinteressante essa comparação que as pessoas fazem aqui, sempre que estão de passagem. Férias,em qualquer lugar do mundo, podem ser maravilhosas ou um caos.

E pra quem não sabe, Viena tem seu lado sombrio, sim! O insuportável e longo frio, o mau-humor em cada esquina, as irritações e as discriminações. Mas, essas coisas a gente só detecta anos depois e, especialmente, quando se fala alemão ou seja a língua oficial do país e se vive a vida local.

Digo viver a vida local porque conheço pessoas que moraram aqui por mais de cinco anos e não se integraram, estiveram só de passagem. Vieram por um tempo limitado e não se envolveram, não aprenderam a língua e viveram de forma superficial.

Trouxeram toda a estrutura do seu país de origem e só se relacionaram com aqueles que falavam sua língua materna. Não viveram a oportunidade de se conhecerem em um lugar diferente ou seja, pra mim, perderam a cereja do bolo.

Conheço outras que, quando moraram aqui só viam seu lado negativo, como aquelas pessoas que sempre reclamam faça a sol ou faça chuva, mas quando tiveram que retornar ao país de origem sentiram mega saudade. Outras, no entanto, foram embora e não querem voltar nem por uns minutos. E há ainda aquelas que partiram querendo ficar.

Como em qualquer relação tudo depende da experiência, e cada uma tem a sua. Não dá para avaliar por fotos, nem por poucos dias. Como dizia minha avó, é preciso comer mais de um quilo de sal juntos para poder entender certas coisas.

Viena é uma cidade linda, mas que tem seu lado obscuro. De perfeita só tem sua arquitetura, e só morre de tédio por aqui quem decide ser infeliz ou deu azar na vida. Afinal, a sorte não é para todos.

Um beijo

Kely

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Texto:Kely Martins Bauer

Revisão: Maria Lucia Castelo Branco

Foto: internet. Se a foto for sua e você deseja que ela seja creditada ou removida, por favor entre em contato. Iremos atender sua solicitação o mais breve possível. Obrigada

kely Pelo Mundo

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Comentários

  • Reply
    luiz
    21 de junho de 2015 at 3:42 pm

    Mandou bem. As vezes precisamos de muito tempo para descobrir que ainda não conhecemos um lugar, uma pessoa ou uma situação a realidade é complexa e nosso olhar julga as aparências. Bjs Dad

  • Reply
    Bianca
    22 de junho de 2015 at 9:29 am

    Oi Kely,
    Descobri agora o seu blog e li alguns textos. Gostei bastante. Especialmente deste. Estou morando em Viena há pouco mais de um mês e estou de passagem. Devo ficar apenas um ano. Mas concordo com você que devemos viver o local para descobri-lo e essa foi uma motivação minha para morar um tempo em outro país. Descobrir um lugar para ao mesmo tempo me descobrir. Enfim, parabéns pelo texto!

    • Reply
      Kely Martins Bauer
      23 de junho de 2015 at 5:58 pm

      Olá Bianca obrigada pelas palavras. Fico feliz por ter gostado do texto.
      Vamos viver o que a vida tem pra gente de bom nao é mesmo?
      Beijocas mil .
      Kely

  • Reply
    Iana Martins
    26 de junho de 2015 at 10:21 pm

    Imagino que a Martha Medeiros tenha ido sozinha e não conhecia ninguém morando lá. Lá é uma cidade, onde pessoas vivem. Ela se referiu como se Viena fosse um cenário, e não é. Pena!
    Bjs

  • Reply
    7 motivos para não morar em Viena | Femme Volátil
    20 de janeiro de 2016 at 9:00 am

    […] E olha que eu tive e tenho um mega suporte do meu marido que é austríaco. Isso contribuiu com mais de 80% para facilitar minha adaptação na cidade. Mas isso não acontece com todo mundo – tenho várias amigas que vieram na mesma situação, mas odeiam Viena. […]

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