9 de dezembro de 2015 Por
2 Em Reflexões/ Viena

Humor brasileiro em terras estrangeiras

Morar no exterior nem sempre é tão fácil como as fotografias e o mundo digital às vezes revelam. É uma experiência sem dúvida diferente e não há absolutamente nenhuma receita de sucesso. Cada pessoa tem uma trajetória diferenciada.

Ao mudarmos de país muitas vezes vemos alguns sonhos sendo enterrados, devido às dificuldades que a nova realidade nos impõe. Por outro lado, vemos também casos de superação e até mesmo o retorno da realização de sonhos que estavam adormecidos na terra natal.

Em Viena há profissionais nas mais diversas áreas. Muitos são expatriados que vieram com sua vaga de emprego garantida e chegaram com uma missão pronta a cumprir, mas a grande maioria é formada por pessoas que construíram sua história aqui mesmo.

Para os falantes de língua portuguesa, não há nada mais gostoso do que poder contar com serviços prestados por um profissional que fala a nossa língua. Sem sombra de dúvida isso facilita e transforma a vida em algo mais leve e agradável. E rir, com certeza é fundamental para a boa sobrevivência em terras distantes.

Viena é um grande centro cultural europeu, especialmente no que se trata de música e arte. E pra conhecer sobre um projeto muito especial ligado às artes, hoje vamos entrar em cena contando a história da pernambucana Suzy de Oliveira, que resolveu voltar aos palcos em terra estrangeira.

teatro1Com uma história de vida muito interessante, ela iniciou a vida artística aos 11 anos de idade em Recife, porém por ser filha de pais extremamente religiosos teve que abandonar o amor pelo teatro logo na adolescência. Foi uma difícil decisão, pois morria ali um sonho.

Ela estudou zootecnia, mas não foi para este lado que seu coração se inclinou. Voltou a estudar e fez curso de formação de ator e demais cursos na área das artes. Foi co-fundadora do projeto pró-criança, onde produzia peças teatrais infantis num espaço cultural para 110 crianças e adolescentes carentes. Apesar de ter uma carreira satisfatória como coordenadora, seu coração ainda pulsava pelo palco e seu sonho ainda era voltar às plataformas.

Em 2002 ela esteve na Áustria pela primeira vez, quando trouxe o grupo de dança folclórica Andarilho para apresentações no festival de dança europeu. Foi durante o festival que conheceu seu futuro marido. Mas nada foi tão rápido ou fácil. Foram quase 7 anos de namoro a distância. Trocas de correspondências e idas e vindas atravessando o oceano Atlântico fizeram parte da sua rotina.

Em uma de suas visitas, em 2007, trouxe a filha, que tinha na época 14 anos. A menina se encantou pelo lugar e disse sentir-se tão bem que não queria voltar para o Brasil. No ano seguinte, a filha de Suzy veio para a Áustria estudar enquanto a mãe terminava seus projetos em andamento no Brasil.

Em 2009 Suzy se mudou para Viena. Durante este período ela escreveu diversas peças teatrais; os textos foram escritos apenas como um hobby. Por diversas vezes pensou em jogar fora os papéis velhos, mas não conseguia. Em 2010 resolveu enfrentar as dificuldades e produzir seus escritos. Sem dinheiro e quase nenhum apoio, conseguiu encontrar atores que estariam dispostos a encarar o projeto voluntariamente. Inclusive um deles é austríaco e fala português muito bem. No ano seguinte estreava sua primeira peça de comédia trágica “Quem não arrisca não petisca”, onde contava com humor uma parte de sua própria história.

Em 2013 foi a vez de “Samba, Amor e Valsa”, peça que falava sobre um casal que se apaixona perdidamente, porém com o passar dos meses descobre que sua paixão não era pelo parceiro, mas pelo encanto do país estrangeiro. Com muito humor retratou a realidade de muitos casais que passam por situações similares, trazendo crítica e reflexão sobre temas delicados como preconceito, problemas sociais e incompatibilidade de gênios.

Em 2014 se inspirou na austríaca Leopoldina, primeira imperatriz do Brasil, para falar sobre o relacionamento de intriga, amor e ódio que se passou na corte. O foco da peça foi o relacionamento amoroso do primeiro imperador brasileiro, Dom Pedro I, com sua esposa austríaca, Leopoldina von Habsburg, e sua amante Domitila “Titilia”, a Marquesa de Santos, além de fazer críticas à sociedade de uma forma atual.

Esse ano a produção inovou e inseriu legenda em alemão para “Cenas do humor irreverente”. As 7 esquetes fazem críticas bem humoradas sobre temas universais e especialmente voltados para o universo feminino como: estética, velhice, morte, amor e também sobre a dura realidade de profissionais no exterior que precisam trabalhar em outra área, diferente de sua formação, para sobreviver.

A intercalação dos quadros ocorre ao som da pianista Letícia de Faria, que além de musicista é professora de português.

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A peça começa com uma crítica ao universo feminino, como moda e beleza, que são assuntos que têm ganhado cada vez mais espaço na mídia e se consagrado como condição fundamental para as relações sociais, onde a idealização do corpo perfeito acaba sendo feita em série. Suzy usou a Barbie como uma palestrante que divulga o ideal da beleza artificial, fazendo uma sátira sobre a busca obsessiva das mulheres pela juventude eterna.

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O quadro seguinte, foi escrito e interpretado pela atriz Mari Jaso. Com o tema ‘a mutação feminina’, ela consegue expor situações sobre a complicada fase da mulher na menopausa e as dificuldades de arrumar um parceiro após os 50 anos. Em seguida vem a cena de uma mulher que está à procura de segurança financeira e possui um amante nada abastado, fazendo uma esquete sobre conflitos relacionados a amor e dinheiro.

Outro quadro interessante é sobre a morte, onde o paraíso não é, necessariamente, um lugar divertido. De forma hilária Suzy de Oliveira consegue trazer algumas reflexões sobre a abordagem da vida após a morte.

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E por falar em morte, o penúltimo quadro traz o espírito de Mozart, que retorna à terra para falar sobre os altos e baixos de sua existência. Entre a tragédia e a comédia, ele nos dá uma visão sobre sua vida privada e pública, revelando aspectos grotescos de sua personalidade que estava em forte contraste com os modos e costumes de sua época.

Para finalizar, o último quadro é a representação da Princesa Sissi de forma moderna, onde ela tenta se enquadrar e atender às expectativas, mostrando seus dramas no castelo austríaco.

O teatro é realmente um instrumento de comunicação e um forte instrumento de reflexão. Com a criação do espetáculo vemos que sonhos foram feitos para serem realizados e não importa onde estejamos, é possível, sim, superar barreiras e concretizar projetos, mesmo em terras estrangeiras.

Detalhes do projeto e datas das apresentações na Suíça e na Alemanha no site Theatre Brasil.

Abraços e até o próximo post!

Texto publicado no blog: www.brasileiraspelomundo.com 

kely Pelo Mundo

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2 Comentários

  • Reply
    Maria Lucia Castelo Branco
    9 de dezembro de 2015 at 11:03 am

    Esse texto ficou ótimo. Parabéns cheios de beijos.

  • Reply
    Bernadete Teixeira
    4 de janeiro de 2016 at 7:24 pm

    Os sonhos podem ser vividos, perfeitamente, não importa aonde e nem quando, basta que se batalhe por ele.
    Excelentes observações Kely.

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